Fazem exatos dois verões que nos encontramos. Parece importante medir o tempo cronológico pelas estações até porque nosso cenário principal é mediado por um rio que varia a todo instante a partir das cheias da maré. Esse movimento com suas infinitas variações gradativamente também nos compõe. Fazem exatos dois verões que nos encontramos. No primeiro deles tínhamos apenas carvão, papel e algumas intenções em aberto.

 

Promessas?

 

Quando iniciamos nossos encontros em meados de 2019 nos interrogávamos: Como pessoas inseridas nas diversas categorias de opressão e subalternidade podem experimentar modos de liberação cognitiva em torno de sua própria atuação no mundo? Esta necessidade se deu uma vez que passamos a nos interrogar sobre os limites produzidos pelas normas político/sociais engendradas em nossas experiências - que são marcadas por processos raciais, pela vida periférica, pelas dissidências de sexo/gênero, pelas relações de mobilidade, permanência e pelas distâncias geográficas onto-epistêmicas. Problematizávamos, sobretudo, como estas dimensões nos mediavam, bem como produziam nossa experiência de ser e estar no mundo, mas também como a permanência de nossas performances exclusivamente a partir dessas marcações histórico/sociais operavam bloqueios em nossos corpos enquanto produtores de um saber artístico. Esse conjunto de desejos trouxeram para as Práticas Desobedientes o caráter de um programa de pesquisa e extensão composto por jovens artistas e estudantes provenientes de diversas cidades do recôncavo da Bahia. Atualmente, investigamos estratégias de liberação cognitiva através de procedimentos artísticos, tomando-os como ponto de partida tanto na formalização de processos como na criação de experiências coletivas junto a comunidade em que estamos inseridos. O exercício composicional em torno do pensamento artístico, dentro do que discutimos, têm proporcionado possibilidades de desprogramação da figuração/representação de traços codificados em nossas expressões, e dilatado territórios de nossa compreensão/atuação artística. No último ano elaboramos uma série de exercícios voltados ao pensamento composicional como dispositivo de expansão desses limites, experimentado formas de comunicação e formalização através da pintura, do desenho, das experiências performativas e dos agenciamentos coletivos também compreendidos como projetos artísticos, como exemplo, o ciclo permanente de encontros, seminários e laboratórios Elixir; organizado entre a comunidade de Cachoeira, estudantes do Centro Acadêmico e o grupo Áfricas nas Artes.

 

Liberdades e liberação cognitiva

 

Sabemos que são nas relações e encontros com as diversas geografias sociais, históricas, políticas e afectivas que nossas condições de movimento e criação se tornam possíveis. O modo pelo qual concebemos e expandimos essas geografias determina, sobretudo, nossas capacidades de elaboração, expressão e atualização das diversas nuances de nossa autonomia e autodeterminação. Quando as diferentes geografias e espaços que compõe as experiências da vida são produzidas exclusivamente apenas a partir de determinadas perspectivas essa relação entre o modo como elaboramos o mundo e como o mundo nos elabora tem condição comprometida.  Nesse caminho tudo aquilo que é vital e que visa garantir as melhores condições para que o processo de criação e produção de diferença ocorra se atrofia. Essas palavras comumente associadas a uma certa fisiologia se tornam necessárias, porque para além da produção de nossas subjetividades nos referimos também a uma espessura material, concreta e corporal de nossas dinâmicas compositivas, todas elas interdependentes nesse processo. A herança inscrita nesse processo de exclusão e morte instalado pela eliminação/denegação das perspectivas de vida que escapam e divergem daquilo que podemos chamar de “norma” se configura em um violento processo de clausura. Ela deixa como legado as (sub)existências um conjunto cognitivo dado a priori de suas próprias expressões no mundo. Estas afirmativas, contudo, nascem de uma escuta motivada em nossos encontros e do enfrentamento com as diversas barreiras de criação que nos deparamos quando adquirimos determinados discursos, línguas e narrativas sobre um certo tipo de “nós” e ao mesmo tempo encontramos bloqueios e barreiras no momento em que nos permitimos performar essas mesmas realidades, ou seja, as nossas próprias. Nesse sentido habitamos um certo paradoxo. Algo da ordem do indizível ao encaramos o choque entre a produção de si e do mundo como as distintas categorias colocadas como um cardápio já esperado de nossas próprias existências. Afinal, como driblar tais expectativas e predicativos condicionados por um certo tipo de mundo a respeito da nossa expressão? Como desenvolvemos experiências que possam reoxigenar nossas células, musculaturas, modos de existências e subjetividades?

Nesse caso, não se trata apenas de uma (re)imaginação do mundo, mas da aplicação de ferramentas que transformam radicalmente o próprio sentido de mundo. Estratégias que afirmam processos de liberação de nossos modos de expressão, criação, cognição e subjetivação. Há nessa tentativa condições possíveis de apresentação não só de outras línguas, mas do aparecimento de linguagens que possam experimentar geografias de expressão que fogem ao vocabulário até então instituído pelos parâmetros de história, verdade e universalidade postos nos tecidos do tempo. Essa, de forma breve, é uma preocupação urgente em nossa atuação artística e coletiva. 

 

Desobediências através do encontro

 

Vielas, pontes, becos, margens, batentes, soleiras de portas, esquinas, pátios, quintais, cozinhas, mangueiras, salas improvisadas...

 

O que os encontros garantem? Em nosso caso poucas coisas materiais. No entanto, liberam no ar uma possibilidade de desmanche de urgências como (auto)explicação e (auto)justificativa comumente esperadas. Esse ganho, aparentemente invisível, se torna possível a partir do diálogo com geografias baseadas na liberação e na incorporação das diversas sonoridades, fronteiras e necessidades de quem se coloca a partir encontro. Esse modo pouco reconhecível de uma ação ético/política, por suas vias, semeia territórios de emancipação que subvertem sobretudo as noções próprias e vigentes de política sujeitadas fundamentalmente aos regimes de legitimidade socialmente reconhecidos até então. Aqui, em nosso caso, os encontros se tornam um ato de desobediência porque, mesmo que de forma temporária, fazem aparecer espaços possíveis dessa outra circulação vital. 

 

Planejando estratégias para corpos desobedientes

 

Ângulos da ponte de ferro, retângulos no calçamento, raízes da maré baixa, formas convexas da barragem, movimentos circulares do sol, paralelismo do gradil...

 

Como tornamos as geometrias ao nosso redor experiências complexas? À medida que nos construímos em ambientes que não foram projetados por nós ou por nossa coparticipação driblar determinadas expectativas discursivas em torno da expressão artística se torna um desafio eminente. Afirmar-se enquanto corpo produtor de estados de arte, por sua vez, não é um exercício menos simples. Desenvolver ações que podem liberar o corpo de criação, atuar em uma frequência cognitiva capaz de negociar e ao mesmo tempo de gerar possibilidades de linguagem acabam por ser horizontes em nossos cotidianos. Esse planejamento se dá, muitas vezes, em movimentos sutis quando, por exemplo, convocamos uma (des)aprendizagem do gesto representacional através do desenho, da pintura ou de estados corporais performativos mediados coletivamente. Esse pensamento composicional, ainda muito difícil de ser incorporado como uma prática discursiva por nós, visa gerar modos de expressão para que esse circuito da “performance das violências esperadas” seja também contornado. A consciência material/virtual produzida por linhas, borrões e manchas nos permite reconhecer habilidades de habitação e negociação como disparadoras de outras geografias mais compatíveis com a multiplicidade presente em nossas urgências. O ato de projetar espaços de expressão que priorizam liberações cognitivas através da própria composição se tornam, nesse caso, uma forma de pensamento.